Praticando

"Acreditar e agir te fará alcançar"

domingo, 27 de janeiro de 2013

Uma coisa séria que aconteceu comigo!

Quando pequena eu era magra. Tão magra que minha mãe vivia me levando à consultas pediátricas para reclamar e tentar com o médico algum medicamento que fizesse abrir meu apetite e com isso, ganhar peso.
Lembro bem de um dia, acho que eu tinha 4 ou 5 anos, em que ao me pesar na balança o pediatra falou sorrindo: Nossa, você está com o peso do meu gato!!! E eu fiquei feliz, lembro que senti orgulho de estar dando orgulho para minha mãe. Achei que eu estava do jeito que minha mãe gostaria que eu estivesse, pois eu entristecia cada vez em que a mãe dizia que eu era muito magra, que eu precisava comer mais, que eu ficaria doente e coisas do tipo. Todo dia de ir ao pediatra eu ficava preocupada se estaria menos magra. A mesma aflição que sinto hoje quando vejo uma balança, mas o motivo é o contrário né, é por estar bem gorda. Eu vivia sob uma pressão da mãe de comer, de comer tudo, de comer bem, de comer e de comer.
E voltando desta consulta no dia em que pesei o mesmo peso do gato do médico, no caminho a mãe passou na farmácia para comprar um "abridor de apetite", eu sempre fui uma criança de questionar o que eu não entendia ou não concordava e ali perguntei: Mãe, pra quê este remédio? Ela me explicou que era para eu sentir mais vontade de comer, porque eu estava muito magra, logo ficaria doente, que era feio pessoa magra, etc...indaguei: Mas o médico não disse que eu estava com o mesmo peso do gato dele? Não estou gordinha? A mãe rio e explicou que ele estava "tirando um barato" de mim, e que o significado disso era: Você pesa quase nada! Está muito magra!
E dai eu me comprometi a comer porque essa era minha preocupação. Eu precisava alegrar minha mãe. Ela cuidava de mim, me amava, fazia tudo por mim e eu sequer era gordinha para alegrá-la. Mas claro, sozinha eu não conseguiria, mas com os remedios Biotônico e Sulfato Ferroso sim, foi possível.
Com seis anos eu já era barriguda, bem barriguda para minha idade.
Fui para a pré escola e lá, conheci o problema de estar gorda. As outras crianças caçoavam da minha mãe porque ela era gorda e me diziam que eu era igual a ela. E eu pensava: e não é tudo bem eu ser igual á ela???? Ficava confusa. Faziam musiquinhas pra mim envolvendo meu peso. E eu fiquei sem falar pra minha mãe que isso me acontecia e fui engordando cada vez mais.
Eu não comia na escola, mas em casa sim. E tudo errado! De manhã, no café da manhã nós comíamos a comida que havia sobrado do jantar do dia anterior...tipo costela cozinha, com arroz feijão e farinha (Farinha para dar mais sustância? Devia ser!!!). Depois comia o que a mãe desse antes do almoço...as vezes pão com açucar, ou pão molhado com leite e muito açucar. Comer era algo que importava verdadeiramente para minha mãe e passava a ser importante para mim também, e só agora me dei conta de onde veio essa importância toda da comida em minha vida. Que triste! Comer compulsivamente no meu caso foi um problema na infância, olha só. As vezes, muitas vezes na verdade, lembro de jantar um prato grande de comida, arroz, feijão e carne gorda cozida ou frita com bastante óleo e quando era frita e minha mãe jogava o óleo da fritura em minha comida que era "para dar um gostinho", dizia ela, umas duas colheres no mínimo e insistia para que eu comesse o segundo prato. Eu aceitava muitas vezes para não desapontá-la, eu lembro disso, queria ser o orgulho dela, que me dizia: Se não comer bastante não vai ficar forte, sabe fulana (citava uma criaça magra)? É feia porque é magra e doente. Pra você não ficar igual tem que comer. E eu comia.
O dia em que comentei que as crianças na escola riam de mim e dela, inclusive, lembro que ela falou: Fala pra eles que eles é que são feios por serem magros, e que criança bonita é criança gordinha, você está vendo as coxas da mãe? São bonitas, olhas que coxonas, tá vendo? E eu balançava a cabeça que sim, e ela completava: Quer ficar com as coxonas da mãe? E eu dizia que sim com a cabeça, e ela concluia: então tem que comer e não ligue pra essas crianças. Se te encherem muito fala que vou falar com a diretora e com os pais delas.
E assim eu passei pela pré escola: sem correr muito porque não tinha fôlego, sem brincar certas brincadeiras porque eu tinha vergonha porque estava gordinha e todo mundo ria e comentava quando não, eu percebia os olhares e coxixos, com meu shorts vermelhinho de elástico nas coxas me torando, me cortando nas coxinhas gordinhas que seriam iguais a da minha mãe e por ai foi.
Quando eu voltava da escola - minha mãe me leva e buscava - ela sempre levava um pão francês com carne frita ou cozida pra eu comer enquanto não chegávamos em casa. O detalhe é que eu morava a 5 minutos da escolinha, isso á pé!!! Gente, que triste.
Preciso e vou cometar meu lanche no primeiro dia de aula quando fui para a primeira série, já gordinha, claro: Um copo daqueles que tem tampa de uns 400 ml no mínimo cheio de tubaína. E ele explodiu no meio do caminho porque fui agitando na mochila...e adivinha: A mãe me fez tomá-lo as 6h30 da manhã já que apresentava o risco de molhar meus cadernos. Nos lanches do resto do ano eram pães com carnes ou frios do tipo: Mortadela! Ou bolachas recheadas. E teve uma época em que eu comecei a comer o lanche que davam na escola, que nada mais era que um almoço as 9h30 da manhã, do tipo: macarrão com salsicha, macarrão com frango, carne com arroz, frango com arroz, etc...e antes de sair de casa eu comia o pão com carne, claro!!! Com café preto.
Eu não sabia, eu era uma criança, como poderia imaginar que tudo isso me traria o problema que tenho hoje, a obesidade?
Aos 10 anos eu já estava beeem gordinha. Com uma pança enorme e sofrendo as consequencias de tudo: fugia das aulas de educação fisica porque era uma exposição pra mim e pra minha gordura, e com isso piorei a situação. Chegava em casa e minha comida já estava separada para eu almoçar: uma panela com muito arroz, feijão, carne e quando frita, o oleo da carne também fazia parte desta composição, sempre.
Assim foi toda minha infância. Quando cheguei na adolescência o problema estava instalado em minha vida. Gorda, excluída de algumas atividades, porque há sim o preconceito, não chamava a atenção dos meninos e por aí foi.

Semana passada eu estava bem triste e cheguei a pensar na operação bariátrica. E foi com tristeza que pensei nela porque gostaria de emagrecer fazendo exercicios e reeducação alimentar.
Não descartei totalmente a hipótese. Mas decidi tentar descobrir porque sou assim, porque tenho essa relação com a comida, essa relação de carinho profundo...e neste final de semana resgatei isso o que contei e analiso como o motivo da meu hábito.

Estou fazendo academia mas não consegui equilibrar a alimentação. O resultado foi 6 kgs a mais em 3 meses. Peso hoje 98 kgs.
É triste demais, mas não tenho nada mais pra fazer a não ser trabalhar com todas as minhas forças o desapego à comida. Não desistir da academia e buscar dia a dia esse equilibrio.

Acho que ele relação à obesidade, eu nunca estive tão triste como nas últimas duas semanas.
Mas espero conseguir o equilibrio e iniciar minha semana de forma segura para mim mesma, com mais carinho e dedicação ao meu corpo, à minha saúde.

Não quero avaliar a parcela de culpa da minha mãe nisso tudo, pois só ela sabia o que se passava com ela para que agisse desta forma comigo. A única coisa que quero é me curar.



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